domingo, 23 de setembro de 2007

é o tempo em movimento


São gaivotas que trazem o cheiro-mar e as histórias-vento.



A liberdade escolheu a complementaridade da crista com a onda,

que são uma única e irrepetível cena.



Dentro de um armário vivi a ouvir os animais livres de fora.

Hoje, também sou dos de fora

mas é cá dentro no coração que nascemos livres.



Cooperando a realidade ofereço o meu serviço ao triângulo.


Saboreio o ar que nos rodeia,

é o tempo em movimento e alegra-me a abundância.


Ribeira,Porto,Agosto2007, poema de Enlaçador Eléctrico

da cova da raiz

da cova

da raiz


Lugares comuns dentro da sala verde

soam a cores adocicadas

quase de amarguras passadas

a voar vibrante num pais quente


Rios

Montanhas


Viver urgente dos afrontamentos e das conversas

que são como glaciares por derreter


Covilha,Setembro2007, poema de Enlaçador Eléctrico

no caminho que possua coração

O vento que vem e que nos pega

como um irmão que nos abraça

perigoso para o comum desconhecido

no ermo do enlaçamento dos pólos extremos

pois pólos distintos em palavras

dois nascimentos e duas mortes

em um mesmo fim

uma fresta

que não é senão

morrer e nascer

para outro sentir voltar

a viver e morrer

como uma semente.


assim a caminhar por entre a destruição e a redenção

calado oiço

como o Amor acende os peitos

em pé,

de sentido forte.

e por baixo

da grande engrenagem

que vai girando

sempre e sempre

sempre e sempre mais

em ciclos sem parar

na mutação dos dias e da natureza

e no recapitular.


sem ficção e fixação das memórias

em um saber existir,

se com pureza resistir aos desejos do caminho

com muita força e amor resistir em um só

a olhar a verdade revelada

de todas as noites e todos os dias,

em presença,

em paz com esta luz

que restabelece a balança

da dureza de caminhar por esta destruição fisica que se consome a ela própria

e que surge da pegada do coração puro

uma chave directa ao paraíso aberto

das manisfestações físicas da criação


a luz

em pé,

de sentido forte.

e por baixo

pois o Amor rodeia tudo em todas as direcções.

forte como uma àrvore

de raiz bem profunda

e que da terra nasce, alimenta e cresce

e espalha o espírito aberto a escutar o vento e a luz,

da salvação,

da cura,

sem medos,

assim caminhar sempre no caminho que possua coração.


Coronado, Trofa, Fevereiro2007, poema de Enlaçador Eléctrico

percorrer em revolução do sentir


o trovão quer rasgar

as asas do pensamento

na verdade

o que pretendo percorrer

são curvas centrifugas

carregadas

e

no momento em que estiver quente no teu pensamento

o grito trovão

voa no frágil olhar

e a verdade é

na sua veracidade

agradavel

tudo nasce

cresce

desaparece

altera

falseia

a verdade do sentir esculpido na luz dos teus olhos

quais olhos

os meus olhos

por ora entrego-me a um ritmo e perco as palavras de certeza incerta

numa dança de linhas

tu vens e tu vais

se existem os dias

existem palavras silenciosas

com todo um sentido

caminho pelo silencio

é dia

é sol

é vento

é ar

vida em movimento

fruição da beleza atemporal

há morte

há nascimento

um compasso sereno

o fim

em si

não é

o fim

em si

mesmo

oposto a ti

pelo meu oposto

oiço o ruido silencioso do eu

tão pouco é oposto

oposto ao eu

silencioso do eu

assim o silencio preenche o que é cheio entre nós

respira nas duas mentes para acalmar o conflito

contra o raio

contra as armas

dois modos de ver ou não

dois modos de sentir a luz

as palavras confundem as proprias palavras

sob a alçada da tua visão inerte

a impecável atitude submerge

se falas sobre ti

nao pareces assumir o teu mundo

antes mais confrontá-lo aos demais presentes

num abraço de paz

na tentativa sincera

no puro intento

e de certeza incerta

o espectro de luz é inteiramente observável

de que luz falas tu então se és cego dos sentidos

como é o teu corpo quando fechas os olhos?

o caminho está iniciado

o uno que se partiu em dois

e por três será multiplicado

de tudo tão pouco é tudo

és tu

tudo

és tempo

és vida

és acaso

és tudo interligado

és tu - tudo

e a arte vive em nós.

Belomonte, Porto, Maio2006,poema de Enlaçador Eléctrico

a cena

Cena, s.f. divisão de um acto de peça teatral; espectáculo; acontecimento; situação; disputa.

Espectáculo, s.m. contemplação; cena; diversão.

Acontecimento, s.m. aquilo que acontece; ocorrência; caso; facto; êxito.

Situação, s.f. acto ou efeito de situar.

Disputa, s.f. altercação; contenda; desafio; debate.



Taipas,Porto, Abril2006, a partir do antigo e agora incompleto dicionário - poema montado de Enlaçador Eléctrico

um só organismo vivo


Tudo em minha volta é um só organismo vivo.

Respira.

Essa ideia que temos de seres separados

De objectos separados

E demais coisas separadas

uma função das limitações do sentir.

Então escuto o coração

que abre-se em divisão

à experimentação

dos sons

e de tudo o que sem som foi criado ou visto,

como aquele penedo além

carregado

de um ser conhecimento,

ser que é tudo o que vive no universo

e que tudo é.

E saberíamos que somos um com esse ser.

Vila Seca, Tábua, Dezembro2006, poema de Enlaçador Eléctrico

não é um crime


É um olhar
mais forte,
menos fraco.


É um sorriso que aquece e que fica
mais forte,
menos fraco,
ainda mais forte.

Não é um crime.

É a semente que será raiz com o envelhecer dos dias.


Chá-das-caldeiras,Ilha do Fogo, Cabo Verde, Abril2005, poema de Enlaçador Eléctrico

muito bom mesmo

muito bom mesmo era que

não deixássemos o destino guiar as nossas coisas e que decida tudo sozinho,



mas que unidos

agíssemos para conspirar

a união entre o destino e o que vimos a ser

com o presente que vivemos e que somos

assim como respirar o passado que vivemos e que assim fomos

e filtrá-lo de novo no nevoeiro da singularidade de alguns que não foram apagados.



estamos aqui para nascer outra vez e para morrer outra vez,

todos juntos

onde todos os dias são novos nascimentos e novas mortes no universo das possibilidades.



Coronado,Trofa, Abril2006, poema e fotografia de Enlaçador Eléctrico

o amanhã nasceu


As palavras ditas e mal gastas, o obvio que assim aparece dentro da sua simplicidade, o mistificado do grupo, em sua própria ilusão entrega-se à sua devoção, e nas noites quentes de verão, debaixo de um coqueiro azul enrolado às estrelas e ao luzeiro cheio e cintilante, ele encontra-se e renasce...

A Mãe fez-lhe recuperar a alma e ele imaginou quantas vezes poderia isto durar mas as empresas dos milagres não sabiam nem o que dizer sobre tal assunto.

Procurou em toda a parte uma defesa pelo seu drama tão abstracto e as estrelas acabaram por lhe caír na cabeça, no centro de toda a sua imaginação.

Desligou o interruptor multifacetado e ouviu um vento quente.

Dançou junto aos seus dentes e batendo os pés na terra fria, sobre a qual viu a luz, renasceu no seu próprio ventre.

Derramou o seu sangue nas peles dos tambores, riu muito e saltitou entre as batidas rítmicas de um coração enfeitiçado da paixão de viver.

E assim sorriu e dormiu feliz enquanto as janelas do molde apaixonante quebravam quaisquer hipóteses válidas ou remotas de o tornarem no mais feliz do seu planeta e arredores do Mundo sem contudo o mistificado do grupo em sua própria ilusão entregar-se à sua própria devoção.


Belomonte, Porto, Dezembro2006, poema de Enlaçador Eléctrico

um olha por um olho o outro olha por outro


Neste preciso momento

A incompreensão é total

entre seres humanos.

Dois seres racionais,

Irmãos de sangue,

Ajudantes da vida.

Um olha por um olho.

O outro olha por um outro.

Alinhamentos desalinhados,

do dia a dia perdido…

numa maior utilização do menor esforço…

Fazem chorar os ciclos empobrecidos da percepção.

Pelas incompreensões das espirais do tempo e do que é o vento.

E de palavras mal pronunciadas.

E de mal ouvidas mal compreendidas.

Escuta-me então minha irmã

As palavras que são tão caladas,

enterradas dentro do meu peito,

pois dá-me a mão e abraçar-te hei já.

Pois peço-te o perdão,

Para alcançar a nossa libertação.


Coronado,Trofa, Junho2007, poema de Enlaçador Eléctrico

a primeira dor


as janelas remotas do molde apaixonante,

quebram a dança diária das linhas da cor,

um drama abstracto na pureza dos milagres,

a Mãe sente a minha dor.


Belomonte,Porto, Novembro2005, poema de Enlaçador Eléctrico